Os Açores afirmam-se pela qualidade excecional dos seus produtos. O nosso leite é de uma qualidade sublime, os nossos queijos conquistam medalhas internacionais, o peixe capturado nas nossas águas continua a chegar às melhores mesas, o ananás tornou-se único graças ao engenho açoriano e o vinho do Pico chegou mesmo a viajar até às cortes dos Czares. E, pelas nossas nove ilhas, existiriam certamente muitos outros exemplos dignos de referência.
Mas não quero escrever sobre esses produtos que conquistaram o seu espaço nos mercados, nas revistas da especialidade e nas mesas ao redor do mundo.
Quero escrever sobre outro produto açoriano de excelência. Um produto mais recente, menos palpável, mas economicamente decisivo para a Região.
O Turismo.
Alguns dirão que comparar turismo com vinho, queijo, leite ou fruta não faz sentido. Mas faz. Porque o turismo, no fundo, também é um produto. Um produto que precisa de promoção, logística, transporte, investimento, planeamento e visão estratégica. E, tal como qualquer outro produto açoriano, sofre de um problema antigo e persistente: A insularidade.
Nos últimos meses, o turismo açoriano tem vindo a dar sinais claros de desaceleração, basta olhar para os boletins mensais do Serviço Regional de Estatística. E aquilo que inicialmente poderia parecer apenas um abrandamento momentâneo começa lentamente a revelar algo mais profundo.
Talvez o problema esteja precisamente aí, habituámo-nos demasiado depressa ao crescimento, “fiamo-nos na virgem e não corremos”.
Durante alguns anos ouvimos falar dos Açores como destino de excelência, sustentável, autêntico e diferenciador. Vieram os prémios internacionais, as capas de revista, os influenciadores, os recordes de dormidas e os discursos triunfalistas. E tudo isso teve mérito. Os Açores deram-se verdadeiramente a conhecer no panorama turístico internacional.
Mas talvez, no meio desse entusiasmo, se tenha confundido crescimento com solidez.
Porque o turismo açoriano continua excessivamente dependente de um fator essencial: A acessibilidade aérea.
E quando começamos a perder ligações, rotas, lugares disponíveis e competitividade nos preços, percebemos rapidamente como o castelo era menos sólido do que parecia.
A saída da Ryanair expôs isso mesmo. Não criou o problema, apenas o tornou demasiado visível para continuar a ser ignorado.
Durante demasiado tempo viveu-se muito mais na lógica do “acreditar” do que na do preparar. Acreditou-se que os Açores já estavam consolidados como destino; que os turistas continuariam a chegar naturalmente; que bastava aparecer em meia dúzia de feiras, distribuir brochuras bonitas e manter discursos otimistas.
Mas a realidade raramente funciona assim.
Os mercados mudam, as companhias alteram estratégias, a concorrência cresce. E os destinos que não evoluem, que não planeiam e que não antecipam problemas acabam, inevitavelmente, por perder competitividade.
Talvez nos tenhamos acomodado demasiado à ideia de sucesso adquirido.
Durante anos bastou a força natural dos Açores, a paisagem, a autenticidade, a segurança e a tranquilidade. Mas o turismo moderno não vive apenas da beleza natural. Vive de conectividade, de capacidade estratégica, de promoção contínua, de relações comerciais sólidas e, acima de tudo, de preparação.
Preparar significa estudar mercados, criar atratividade, negociar rotas, garantir lugares disponíveis e perceber que, entre o turista querer vir e conseguir efetivamente chegar aos Açores, existe uma enorme diferença.
Porque tal como o vinho do Pico, o queijo de São Jorge ou o nosso leite, o turismo açoriano também precisa de tempo, cuidado, estratégia e visão para manter a sua qualidade e o seu valor.
Não temos de começar do zero. Os Açores continuam a ter uma enorme força natural, uma identidade única e um potencial turístico extraordinário. Mas é preciso voltar a trabalhar com seriedade, planeamento e capacidade de antecipação.
Será mais difícil agora? Provavelmente será.
Porque recuperar competitividade é sempre mais difícil do que mantê-la.
Mas tem de ser feito. E rapidamente. Sob pena de colocarmos em causa um dos setores mais importantes da economia açoriana e tudo aquilo que dele depende, direta ou indiretamente.
E se quem hoje tem essa responsabilidade não conseguir fazê-lo, então que apareçam outros com capacidade, visão e vontade efetiva de trabalhar.
Porque o Turismo não vive de fé.
Vive de estratégia.